Eu vivo lendo

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Crítica: A Lenda de Materyalis de Saymon Cesar

Posted: 13 Aug 2016 03:43 PM PDT


Páginas: 239

Autor(a): Saymon Cesar

Editora: Novo século

Ano de Publicação: 2016

Avaliação:

Capa: 5 estrelas

Diagramação: 5 estrelas

Obra Completa: 5 estrelas + favorito.




No princípio dos tempos, as sociedades de Hedoron acreditavam nos mandamentos dos servos de Materyalis, suposto deus criador do Universo e da vida. A lenda diz que a divindade se angustiou ao observar os atos corruptíveis das suas criaturas e atribuiu a si toda a culpa da imperfeição dos povos. Sua consciência ator¬doada separou sua essência em duas entidades, criadoras de ideologias extremistas que dividiram a crença das sociedades. Assim nasceu a materja, a guerra que visa a consolidação de uma verdade entre todas as raças. Avessa ao propósito da contenda milenar surge uma sociedade secreta, que busca o único artefato capaz de desvendar o que realmente foi Materyalis e, assim, livrar os povos da dúvida que os condenou aos intermináveis confrontos. Mas, para chegar ao objetivo, é necessário usar a misteriosa aptidão de cinco indivíduos habitantes de Aliank, um reino dominado por contradições que podem apressar a ruína do mundo antes que a verdade sobre Materyalis seja revelada.

O autor Saymon Cesar enviou o livro em forma de parceria. Muito Obrigada, principalmente por confiar em nosso trabalho. Desejamos todo o sucesso do mundo! Niho!

Sobre o autor:

Saymon Cesar,
Nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, mas vive no Rio de Janeiro desde a infância. Admirador da literatura fantástica e pesquisar de diversas religiões e culturas teve a ideia de unir esses dois interesses numa trama para um fórum de RPG, criado em 2006.
Foi aí que nasceu o objetivo de transformar A lenda de Materyalis em uma série literária contando com o apoio de parceiros, que criaram personagens para este audacioso projeto, Saymon montou a primeira trama de uma saga recheada de mistérios, que propõe diversão e reflexão num universo onde a fantasia se mistura a situações complexas, mas muitas vezes análogas ao nosso cotidiano.

Segue os dados do autor caso queiram adquirir o livro ou conversar com ele:


Opinião:

Quem me acompanha há um tempo sabe o quanto sou apaixonada por livros de fantasia, afinal, J.R.R.Tolkien é o meu autor preferido. Esse universo de personagens bem elaborados, mundos originais, guerras, batalhas, elfos, orcs entre outros, é algo encantador. Hoje, venho apresentar a vocês um autor NACIONAL que me proporcionou viver neste universo novamente.

Somos apresentados a três ideologias para um mesmo deus. Cada uma crê e segue doutrinas diferentes, é como se fossem as religiões do nosso mundo, foi uma grande sacada do autor de fazer-nos comparar o universo fictício com o real. Não acho necessário descrevê-las detalhadamente aqui, vocês precisam ler para descobrir o que cada uma significa, mas, basicamente, temos as seguintes características: Teryonismo – "representa" aqueles fieis ortodoxo, que seguem as doutrinas de qualquer forma, seja para fazer o bem ou o mal; Marilismo – "representa" aqueles fieis que vê bondade na maldade, e por ultimo, Emylismo – "representa" aqueles fieis que acreditam que as guerras só irão acabar se o deus voltar para trazer a paz e, apesar de seguir doutrinas e ter muita fé, as escolhas e decisões são baseadas em seus próprios pensamentos.

"Servir a Materyon não significa que fugiremos da realidade que ele e Marilis projetaram para todos nós, vivos ou mortos."

Em minha opinião, Saymon foi muito inerente ao criar essas ideologias. Vivemos isso no mundo real, já que temos pessoas de várias religiões, e isso causa guerras e intrigas, onde muitas vezes nos vemos obrigados a seguir tal coisa que não queremos por causa de família ou até mesmo preconceitos. Ao terminar de ler, cheguei à conclusão de que convivo, diariamente, com o Marilismo. Claro, isso é uma opinião minha. Adorei essa ideia do autor de misturar fantasia com o real, achei admirável.

"Mas a incerteza sobre o que ele realmente era provocou a guerra ideológica entre as raças, que desconhece limites, destrói inúmeras vidas e já se estende por mais de três milênios."

Os personagens foram construídos de uma maneira muito peculiar. Apesar de vários humanos, elfos ou mestiços de ideologias diferentes, cada um possui características únicas. É como se fossem pessoas reais, com pensamentos e atitudes diferentes. Em nenhum momento encontrei fragmentos iguais em personagens distintos, e, por esse motivo, ficou difícil escolher o meu preferido. Saymon dosou cada um com qualidades e defeitos suficientes para deixar o ritmo da história desenvolta, já que é dificultoso guardar o nome de cada um logo de inicio. Os dens (dons) de cada um foram planejados e organizados genialmente. Todos os personagens considerados protagonistas foram bem aproveitados, consentindo aquela vontade de querer um livro separado contando a vida de cada um. Os anti-heróis são desumanos, maléficos e impiedosos, deixando as descrições dos fatos muito mais intensos.

Os personagens secundários são tão interessantes e estruturados que, ao deparar-me com momentos em que os tais entram em conflitos, fiquei triste. Eles são tão indispensáveis e significativos quanto os protagonistas.

"... Com ele, também partia um pouco do amor, o mais belo de todos os sentimentos, tão necessário e raro naqueles tempos de guerra."

Eu adoro quando o narrador é intruso, pois, além de termos a visão dos personagens, temos a do próprio narrador. Harcos – narrador – é muito inteligente, seus pensamentos sobre tudo o que está acontecendo são bem delicados e instruídos. Saymon escreve tão bem que, conseguiu passar todos os detalhes das batalhas e descrições mais detalhadas através de um personagem que não vivenciou nada do que foi descrito, apenas está observando e nos contando.
Os conflitos são bem retratados, em vários momentos peguei-me totalmente focada até terminar o parágrafo para saber quem ia vencer. Entretanto, o autor não usa apenas combates – mão a mão – para representar esses conflitos, muitas vezes os próprios diálogos entre os personagens especificavam essas batalhas de tão intensos e filosóficos.

" – Pode ser bom com as armas, Lorde Sarlakros, mas é ridículo com as palavras."

Apesar dos nomes difíceis, tanto dos personagens, como das ideologias, lugares e dens, a escrita de Saymon é fluida, agradável e muito bem desenvolvida. De inicio não é tão fácil decorar todas aquelas informações, mas, no decorrer da leitura, decorei tudo que nem percebi.

O desfecho casou com o meio e o inicio, pode parecer meio estranho ter acabado daquela forma, mas, sabemos que terá continuação, então foi muito mais do que satisfatório.

Em suma, a Lenda de Materyalis é uma leitura muito bem estruturada e bem feita, com momentos intensos, diálogos filosóficos, personagens cativantes e muitas batalhas. Eu recomendo para todos os leitores que gostam de viajar em um mundo totalmente fantástico, mas, ao mesmo tempo, que se mistura com o nosso cotidiano. Se vocês gostam de espadas, elfos, dragões, deuses, leiam! Vão adorar.


ENTREVISTA:

Para deixar a critica completa, realizei uma entrevista com o autor, envolvendo perguntas baseadas em sua vida pessoal e de escritor. Confiram:

1° - Ao terminar o livro, deparei-me com dois mundos: um mundo criado a partir da história apresentada e outro mundo criado a partir do RPG. As características dos personagens, vestimentas, armas, descrição das lutas, ambientes, tudo me levaram a pensar em um jogo. Você pensa, futuramente, em criar um game RPG baseado no universo de Materyalis?

RESPOSTA: Na verdade, A Lenda de Materyalis começou em um fórum de RPG. Em 2004, iniciei um grupo com esse tema e, desde então, fui evoluindo o enredo. Minha ideia inicial era escrever um livro de RPG com o apoio de alguns amigos, e o projeto da criação dos romances existia, porém, era muito vago. Durante todo esse tempo, minhas prioridades variaram muito e, só em 2014, consolidei um projeto literário em conjunto com companheiros de jogo do próprio fórum, que ainda existe e serve para a criação dos roteiros dos livros. Os protagonistas foram criados por cinco coautores (Desirreé Schwarcz - Dotter, Jorge Augusto - Hirlun, Giovanna Casseb - Liliel, Bruno Gomes - Sarlakros, Jean Marques - Morhariel), que trabalharam o enredo e demais características em conjunto comigo. Em suma, tudo o que jogamos no fórum se transforma numa obra literária no final. Assim nasceu o projeto Crônicas de Aliank no universo d'A Lenda de Materyalis. Posso te dizer que já existe muito material para lançar um livro de RPG, embora ainda não haja previsão para isso acontecer. Há, também, um projeto paralelo de um game, sim, mas ainda em fase muito inicial. É possível explorar o tema d'A Lenda de Materyalis de muitas formas e, certamente, em algum momento vou focar minhas atenções nesses projetos.  

2° - Eu percebi que A lenda de Materyalis está sendo muito bem recebido por quem o lê. Alias, você está tirando do próprio bolso para enviar livros aos parceiros. Suas expectativas estão sendo alcançadas em relação ao feedback dos leitores? E sobre a parte econômica, queria saber sua opinião sobre isso: publicar livro por amor, ou por fins lucrativos?

RESPOSTA: As expectativas estão bem melhores que o esperado. Eu estava muito inseguro em relação ao retorno que os leitores dariam, principalmente devido a aceitação em nosso país das obras de literatura fantástica criadas por autores nacionais. Temia, também, que tudo que criei a nível de características do universo materyalístico, nomes e tudo o mais gerasse uma visão distorcida das minhas intenções. As pessoas poderiam pensar que eu escrevi tudo isso para tentar desesperadamente me igualar a grandes autores do gênero, o que não é verdade. Eu sinto necessidade de colocar uma identidade em cada componente no universo d'A Lenda de Materyalis, pois é o meu estilo. Mas encarei os receios e prossegui. Felizmente, os leitores estão percebendo tudo da forma correta. Ver tanta gente lendo, desejosos pela continuidade, é muito gratificante e traz uma realização muito forte. Por exemplo, quando alguém está tão envolvido com a trama e vem me procurar, se roendo de curiosidade em saber quando sai o próximo livro, é indescritível e emocionante. Já li e ouvi tanta coisa legal que me sinto cada vez mais motivado com o trabalho.

Já em relação a parte econômica, não tenho qualquer problema em falar sobre isso. Minha opinião é direta: escrever primeiro por amor, pelo prazer que isso gera e, claro, por ser o elemento principal para gerar uma boa obra. Quero levar boas histórias para muitas pessoas e ajudar quem eu puder. Porém, viso também uma consolidação financeira, que traga conforto a mim e a minha família, e que permita que eu trabalhe 100% para a minha paixão literária e possa desenvolver outros projetos. Meu sonho é viver de contar histórias, como diz o aclamado André Vianco. É complicado conseguir isso por aqui, mas minha perseverança não permite que eu pare. Não é possível se iludir e dizer que dinheiro não é necessário para divulgar a obra e fazer o projeto evoluir também. Então não vejo nenhum pecado nisso, desde que o foco sempre seja na qualidade da nossa literatura, usando o recurso financeiro como uma ferramenta de trabalho, não como uma ambição desvairada e mesquinha.

3° - Infelizmente, no Brasil, autores não são valorizados o quanto deveriam ser. Para piorar, os brasileiros não possuem o habito de ler livros nacionais. A cultura do nosso país é baseada em culturas de outros países. Porém, devemos mudar isso; já que temos muitos escritores que merecem reconhecimento. Qual a sua opinião sobre isso? O que faria, como escritor, para mudar essa visão das pessoas em relação à literatura brasileira? Já pensou em desistir de ser escritor ou de publicar uma obra por conta desses pré-conceitos? Sua família de apoiou nesse universo literário?

RESPOSTA: Não dá pra dizer que os pré-conceitos com os autores nacionais inexistem. Isso é visível e palpável. Meu dever como escritor é incentivar outros que desejam se transformar em autores a seguir firme no caminho da literatura brasileira, que é riquíssima. O Brasil está contaminado com a ideia de que obras nacionais não têm qualidade e que não vale a pena perder tempo com elas. É dever dos autores também fazer um pouco do papel de médico para remediar esse pensamento, mas é um trabalho muito longo. É, verdadeiramente, quebrar um enorme paradigma e, como isso demanda tempo, muita gente desiste e avançamos pouco. Portanto, penso nessa mudança como um projeto, que não tenho ideia de quanto tempo precisará para se concretizar, ou mesmo se estarei vivo para ver o resultado. Porém, sei bem que, se entrarmos numa onda de conformismo, as próximas gerações de talentos estão fadadas a viver o mesmo problema. Não gosto de pensar apenas como "não quero que meus filhos passem por isso". Não quero que os meus e os de todos não vivenciem tais dificuldades. Não conseguiremos isso nos escorando em discursos vazios, sem qualquer amparo de atitudes coerentes para mudar esse quadro. Não é justo que um conjunto de livros nacionais com menor aceitação estereotipem todos os outros. 

Agora que o meu livro começou a ter mais visibilidade, estou pensando em algumas ideias para fomentar o incentivo à literatura nacional e unir as pessoas para valorizarmos escritores da nossa pátria. Gosto de desenvolver minha criatividade (a maior qualidade de um brasileiro, ao meu ver) e, assim como fui persistente com A Lenda de Materyalis, serei nesta finalidade. Estou certo que ocorrerão resultados promissores. Sonho em ir numa livraria onde a maior parte dos livros expostos são nacionais. Como disse, não sei se viverei para ver isso, mas farei a minha parte para envolver as pessoas nesse pensamento. 

Por fim, nunca pensei em desistir por causa dos pré-conceitos. Penso que a boa crítica é aquela que dosa coerentemente qualidades e defeitos. Se eu tivesse dado ouvidos a pessoas que me disseram que não vale a pena ser escritor no Brasil, ou que minha ideia não tinha futuro, não estaria vivenciando o que estou hoje, nem daria chance para esse panorama mudar e crescer. Felizmente, tive uma excelente estrutura familiar para me incentivar também. Especialmente minha esposa e minha mãe, que sempre conversaram serenamente comigo para me acalmar nos momentos difíceis. Mas, também foi por eu me juntar às pessoas certas que hoje o livro está aí, ocupando um pequeno espaço nas prateleiras de muitos admiradores da literatura fantástica. 

4° - Os nomes dos personagens, as ideologias, os dens (dons), os tipos de armas e entre outras coisas foram criações suas, ou seja, originais – parabéns por isso -; assim como a JK.Rowling fez com o universo de Harry Potter. Houve alguma base para isso? Por exemplo, o nome da guerra Marteja: você juntou palavras? Ou olhou para o lado e simplesmente pensou: MARTEJA? Isso serve para todos os itens criados.

RESPOSTA: Obrigado pelo reconhecimento! Veio tudo da minha cabeça mesmo. Algumas pessoas falam que não conseguem decorar os nomes e que eles são complicados, mas acredito que todos eles são importantes para construir a identidade que desejo expressar na profundidade da obra, assim como outros autores renomados fizeram. A própria J.K. Rowling é um bom exemplo disso, nos nomes das habilidades que os bruxos usam. Eu quis enriquecer A Lenda de Materyalis e, nesse ponto, não vejo como fazer isso sem sair da comodidade da cópia. Cada denominação tem um sentido. Materja, por exemplo, vem da suposta língua artanin (criaturas espirituais do universo materyalístico). "Mater" seria "matéria" e, "ja", vem da união de dois caracteres que criam a contradição entre certo e o errado. Há alguns artigos no site oficial falando da origem das palavras. Materja, por exemplo, tem uma postagem falando especificamente sobre ela. Recentemente, comecei a me aprofundar no desenvolvimento da língua artanin, que será melhor explorada ao longo dos próximos meses. 

5° - A ultima pergunta, mas não menos importante (a mais clássica de todas) é: Todo autor possui uma inspiração, qual a sua?

RESPOSTA: Várias! Tolkien me inspira muito, como você deve ter percebido. Porém, confesso que eu não teria colocado elfos ou raças análogas ao universo dele, pois eu queria algo muito próprio. Mas já existe toda uma cultura estabelecida no fórum de RPG, onde tanta gente curte raças já conhecidas e as escolheu para jogar. Portanto, procurei fazer com que cada uma tivesse sua particularidade em Hedoron, e essas coisas vão se revelando conforme os livros saírem. Mas, voltando ao centro da questão (eu tenho uma grande facilidade em pegar certos ganchos em assuntos e me desvirtuar do foco, rs), o contato com a natureza é essencial para eu me inspirar. Muitas vezes, escrevo com uma vista para as montanhas, com muito verde, na minha casa, com direito a um belo por do sol. E, daqui, voltamos a influência do Tolkien: gosto muito da trilha sonora da trilogia O Senhor dos Anéis, e a escuto frequentemente enquanto estou escrevendo. Tudo isso me impulsiona bastante e fazem minha mente viajar para Hedoron. Além disso, o feedback da minha família, meus companheiros de grupo do RPG Materyalis, sempre me inspiraram muito e foram essenciais para criar o livro. Agora, vivo uma novidade com o apoio dos leitores e parceiros, o que está fazendo minhas ideias fluírem muito mais. Podem se preparar para um volume 2 muito mais intenso que o primeiro e, ao meu ver, dez vezes melhor. E vocês sabem que o "dez" tem um significado misterioso na trama, não sabem? :)

Então é isso, leitores! Até a próxima
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